Instituições financeiras de peso mundial estão abrindo cofres digitais para Bitcoin, mas pesquisadores alertam que a criptografia que protege esses ativos pode ter prazo de validade.
Os grandes bancos globais finalmente estão entrando de vez no mercado de custódia de criptoativos. Em maio, o BNY Mellon — maior custodiante do mundo, com US$ 59,4 trilhões em ativos sob custódia e administração — anunciou que passará a oferecer serviços de guarda de Bitcoin e Ethereum em Abu Dhabi. Semanas depois, o Standard Chartered confirmou a aquisição integral da Zodia Custody, custodiante de ativos digitais que o próprio banco incubou em 2020.
O movimento sinaliza uma virada de chave no setor bancário tradicional: a custódia institucional de criptomoedas deixou de ser uma aposta de nicho e passou a integrar a estratégia central de algumas das maiores instituições financeiras do planeta. Para entender melhor como o Bitcoin funciona antes de acompanhar esse movimento, confira o guia completo de Bitcoin para iniciantes.
A ameaça que pode estar dentro dos cofres
Segundo a CryptoSlate, enquanto os bancos constroem sua infraestrutura de custódia, um problema potencial já está embutido na arquitetura do próprio Bitcoin: a criptografia de curva elíptica, que protege as chaves privadas dos usuários, pode ser vulnerável a computadores quânticos suficientemente poderosos no futuro.
A preocupação não é nova, mas ganha contornos mais concretos à medida que empresas como Google e IBM avançam no desenvolvimento de hardware quântico. O algoritmo de Shor, desenvolvido ainda nos anos 1990, demonstrou teoricamente que um computador quântico maduro seria capaz de fatorar os números primos que sustentam a segurança das chaves públicas utilizadas pelo Bitcoin — o que, na prática, permitiria derivar a chave privada a partir da chave pública exposta.
Maior custodiante global, com US$ 59,4 tri sob gestão, anuncia custódia de Bitcoin e Ethereum em Abu Dhabi.
Banco britânico adquire integralmente a Zodia Custody, custodiante digital que ele mesmo incubou em 2020.
Algoritmo de Shor pode, em tese, quebrar a criptografia de curva elíptica usada pelo Bitcoin com hardware quântico maduro.
NIST já publicou padrões iniciais de algoritmos resistentes a ataques quânticos, mas a adoção no ecossistema cripto ainda é incipiente.
Quanto tempo falta para o risco se tornar real?
A maioria dos especialistas em segurança cibernética estima que um computador quântico capaz de quebrar a criptografia do Bitcoin ainda está a décadas de distância. O estado atual da tecnologia exigiria milhões de qubits físicos com taxas de erro extremamente baixas — muito além do que qualquer laboratório do mundo possui hoje.
Contudo, o setor financeiro tem um histórico de operar com horizontes de risco muito longos. Reguladores e gestores de risco já começam a incluir a ameaça quântica nos seus frameworks de análise, especialmente diante de estratégias do tipo “colher agora, descriptografar depois” — em que agentes mal-intencionados armazenam dados cifrados hoje para decodificá-los no futuro, quando o hardware quântico estiver disponível.
O que é a estratégia “colher agora, descriptografar depois”?
Trata-se de uma abordagem em que adversários capturam e armazenam dados criptografados atualmente — incluindo transações em blockchain — com a intenção de decifrá-los assim que computadores quânticos suficientemente poderosos estiverem disponíveis. Para custódia institucional de longo prazo, esse cenário representa um vetor de risco que já começa a ser debatido em fóruns de segurança e regulação financeira.
A indústria já busca soluções
O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) publicou em 2024 os primeiros padrões oficiais de criptografia pós-quântica, baseados em algoritmos que, até onde se sabe, resistem a ataques de computadores quânticos. A adoção desses padrões no ecossistema de criptomoedas, no entanto, demandaria mudanças profundas nos protocolos existentes — um processo complexo que exige amplo consenso entre desenvolvedores.
Para os bancos que estão investindo agora em infraestrutura de custódia, a questão que se coloca é: em quanto tempo será necessário atualizar esses sistemas? A resposta pode determinar parte significativa do custo e da arquitetura das soluções que estão sendo construídas hoje.
📰 Nota editorial
Esta reportagem é baseada em análise publicada pela CryptoSlate. O KriptoHoje reescreveu e contextualizou o conteúdo para o público brasileiro. A ameaça quântica à criptografia do Bitcoin é um debate técnico em andamento — não há consenso sobre prazo ou probabilidade de materialização do risco.
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Sua custódia de Bitcoin começa com a chave privada
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