Uma das vozes mais influentes do Banco Central Europeu defendeu publicamente o uso de blockchain pela instituição — e o fez no palco mais importante da política monetária global.
Isabel Schnabel, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu (BCE), afirmou que a instituição precisa abraçar a tecnologia blockchain para se modernizar e extrair benefícios das novas ferramentas financeiras disponíveis. As declarações foram feitas durante o Simpósio de Política Econômica de Jackson Hole, realizado na última sexta-feira (28), um dos encontros mais relevantes entre autoridades financeiras do planeta.
O evento reúne anualmente presidentes de bancos centrais, ministros de finanças e economistas de destaque global. A escolha desse palco para tratar do tema reforça o peso do argumento: a discussão sobre blockchain já alcançou o núcleo da formulação de política monetária no Ocidente.
Segundo a Livecoins, Schnabel defendeu que o BCE precisa se beneficiar dessas ferramentas para não ficar para trás em um cenário financeiro em acelerada transformação. A dirigente não detalhou um projeto específico, mas o posicionamento é significativo dado o histórico cauteloso da instituição em relação a ativos digitais.
O que está por trás do argumento
O BCE já vinha conduzindo experimentos internos com tecnologia de registro distribuído (DLT) — a família de tecnologias à qual o blockchain pertence — aplicados a sistemas de liquidação e pagamentos interbancários. A fala de Schnabel, porém, sinaliza uma possível mudança de postura: sair do campo experimental e avançar para uma adoção mais estrutural.
O contexto importa. O euro digital, projeto de moeda digital de banco central (CBDC) em desenvolvimento pelo BCE, também depende de decisões sobre infraestrutura tecnológica. A adoção de blockchain — ou de alguma variante dela — poderia influenciar diretamente a arquitetura desse sistema.
Simpósio anual que reúne as principais autoridades monetárias do mundo. Declarações feitas lá costumam mover mercados e sinalizar tendências regulatórias.
Diversas instituições, incluindo o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), já testam blockchain para liquidação de ativos, redução de custos e rastreabilidade de transações.
O BCE estuda emitir uma CBDC para cidadãos europeus. A tecnologia subjacente ainda não foi definida, o que torna o debate sobre blockchain especialmente relevante agora.
China, Índia e dezenas de outros países já estão em fases avançadas de CBDCs. A pressão sobre o BCE para acelerar sua modernização tecnológica é crescente.
Uma virada discursiva com implicações práticas
Historicamente, o BCE adotou uma postura mais reservada em relação às criptomoedas do que, por exemplo, alguns bancos centrais asiáticos. A presidente da instituição, Christine Lagarde, chegou a classificar o Bitcoin como ativo sem valor intrínseco em diversas ocasiões. A fala de Schnabel não contradiz esse posicionamento diretamente — ela foca na tecnologia, não nos ativos —, mas amplia o debate interno sobre o que o banco central pode absorver do ecossistema cripto.
Tecnologia sem o ativo: é possível?
Parte do debate nos bancos centrais gira em torno de usar blockchain sem criptomoedas — ou seja, redes permissionadas, controladas e auditáveis. Essa abordagem preserva o controle institucional e elimina a volatilidade, mas abre mão de características como descentralização e censura-resistência que definem o modelo original do Bitcoin.
Para investidores e entusiastas do setor, a movimentação do BCE pode ser lida como um sinal de legitimação gradual da infraestrutura cripto — mesmo que o banco central nunca venha a operar com ativos digitais descentralizados. A adoção institucional da tecnologia tende a aumentar a familiaridade regulatória com o ecossistema como um todo.
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