Os padrões que definem como carteiras Bitcoin derivam chaves, protegem fundos e se comunicam entre si têm nome: BIPs e SLIPs. Conhecê-los é entender a arquitetura invisível por trás de cada transação on-chain.
Quando alguém usa uma carteira de hardware para receber ou enviar Bitcoin, uma série de padrões técnicos entra em cena silenciosamente. Esses padrões são definidos por dois tipos de documentos: as BIPs (Bitcoin Improvement Proposals) e as SLIPs (SatoshiLabs Improvement Proposals). São eles que garantem interoperabilidade, segurança e previsibilidade entre carteiras, aplicativos e protocolos distintos.
As BIPs são propostas abertas de melhoria do Bitcoin — documentos técnicos que descrevem novos padrões, funcionalidades ou mudanças no protocolo, como o SegWit e o Replace-by-Fee (RBF). Qualquer desenvolvedor pode submeter uma BIP ao repositório oficial, que é mantido pela comunidade. Para uma leitura introdutória mais ampla sobre o protocolo, vale consultar o guia completo de Bitcoin para iniciantes.
As SLIPs, por sua vez, são mantidas pela SatoshiLabs — empresa por trás da Trezor — e cobrem padrões que não se encaixam nos critérios de uma BIP formal. Frequentemente estendem repositórios de BIPs existentes, como a descrição detalhada de estruturas de carteiras hierárquicas.
Carteiras determinísticas hierárquicas (HD Wallets)
A base da maioria das carteiras modernas de Bitcoin está no conceito de carteira determinística hierárquica, ou HD wallet. Em vez de gerar endereços aleatórios e independentes, uma HD wallet deriva todas as chaves a partir de uma única semente mestre — o que simplifica o backup e aumenta a rastreabilidade interna dos fundos.
BIP32 — A estrutura raiz das HD wallets
O BIP32 estabelece como derivar chaves privadas e públicas a partir de uma semente mestre binária, seguindo um caminho ordenado de índices. A notação padrão é m / index1 / index2 / ... / indexN. Cada nível da árvore pode gerar novos pares de chaves de forma determinística e auditável.
Dentro do BIP32, existem dois modos de derivação: reforçada e não reforçada. A derivação reforçada — indicada por um apóstrofo no caminho, como m / 44' / 0' / 1' — é mais segura, pois impede que a exposição de uma chave privada filha comprometa a chave pai. Já a derivação não reforçada permite criar carteiras de visualização apenas (watch-only), úteis para monitorar saldos sem expor chaves privadas.
Por que derivação reforçada importa?
Uma chave pública estendida de um nó pai, combinada com uma chave privada filha não reforçada, pode matematicamente expor a chave privada do pai. Por isso, os primeiros níveis da árvore — purpose, coin type e account — sempre usam derivação reforçada. Carteiras de hardware como a Trezor Safe 5 Bitcoin Only implementam esse isolamento por padrão, garantindo que um vazamento pontual nunca comprometa a raiz da carteira.
BIP39 — A frase de recuperação de 12 a 24 palavras
O BIP39 define como gerar e usar frases mnemônicas — as famosas sequências de 12, 18 ou 24 palavras que servem de backup de uma carteira inteira. O padrão descreve dois processos: a geração da frase e sua conversão em semente mestre binária, com suporte opcional a uma passphrase adicional.
É essa semente que alimenta o BIP32 para derivar todas as chaves da carteira. A robustez do BIP39 está na entropia: uma frase de 24 palavras gerada corretamente representa 256 bits de aleatoriedade, tornando ataques de força bruta inviáveis na prática.
BIP43, BIP44, BIP49 e BIP84 — Hierarquias para diferentes tipos de endereço
O BIP43 estabelece que o primeiro nível de derivação — chamado de purpose — deve identificar qual BIP descreve a estrutura dos níveis seguintes. Isso cria um sistema modular e extensível.
Estrutura m / 44' / coin_type' / account' / change / address. Suporta múltiplas moedas e gera endereços P2PKH (começam com “1” no Bitcoin). O índice coin_type é registrado pelo SLIP44.
Estrutura m / 49' / coin_type' / account' / change / address. Gera endereços P2WPKH-em-P2SH (começam com “3”). Compatível com SegWit e amplamente adotado.
Estrutura m / 84' / coin_type' / account' / change / address. Gera endereços nativos SegWit (bc1). Taxas menores e maior eficiência. Suportado pela Trezor em nível de hardware.
Define constantes numéricas para cada criptomoeda no índice coin_type do BIP44. Bitcoin = 0, todos os testnets = 1, Litecoin = 2, e assim por diante.
SLIPs: extensões técnicas além dos BIPs e SLIPs Bitcoin padrão
Alguns padrões são específicos demais para o processo formal de BIPs, mas igualmente importantes para a interoperabilidade de carteiras. As SLIPs da SatoshiLabs preenchem essa lacuna.
SLIP132 e SLIP32 — Bytes de versão e serialização estendida
O SLIP132 atua como registro oficial dos chamados version bytes — dados que distinguem diferentes tipos de endereços e chaves públicas em criptomoedas compatíveis com Bitcoin. Tecnicamente, um endereço é uma representação em Base58Check de um compromisso de transação prefixado por esses bytes de versão.
Esses bytes não ficam gravados no blockchain, mas são implementados no nível do software de carteiras e serviços. Quando há mudanças — como ocorreu com o prefixo P2SH da Litecoin, que migrou de “3” para “M” — ferramentas de conversão se tornam necessárias para evitar confusão e perda de fundos.
O SLIP32, ainda em desenvolvimento, propõe uma versão estendida do formato de serialização do BIP32, incluindo o caminho completo de derivação no dado exportado e removendo o campo de impressão digital (fingerprint). Está previsto para substituir o SLIP132.
SLIP10 — Derivação universal para múltiplas curvas criptográficas
O Bitcoin utiliza a curva elíptica secp256k1, mas outras criptomoedas adotam curvas diferentes. O SLIP10 descreve como derivar pares de chaves privadas e públicas para essas curvas alternativas a partir da mesma semente BIP39/BIP32, usando sais distintos para evitar colisões entre chaves de diferentes protocolos.
SLIP39 — Compartilhamento Secreto de Shamir
O SLIP39 implementa o Shamir’s Secret Sharing aplicado a seeds de recuperação. Em vez de uma única frase mnemônica de 24 palavras, o usuário recebe múltiplos fragmentos — e apenas um subconjunto deles (definido na configuração) é necessário para restaurar a carteira.
Essa abordagem é uma alternativa mais robusta ao BIP39 para usuários que desejam distribuir o risco de perda física dos backups. Quem estuda Bitcoin com mais profundidade pode aprofundar esse e outros conceitos no Curso Bitcoin do básico ao avançado da KriptoBR, que cobre desde fundamentos até autocustódia avançada.
Padrões de transação: SegWit, RBF e endereços Bech32
Além das estruturas de carteira, BIPs e SLIPs também definem como as transações são construídas e transmitidas na rede Bitcoin. Três padrões se destacam pela relevância prática.
- ✅ BIP141 — Segregated Witness (SegWit) Ativado como soft-fork, o SegWit separou a assinatura (witness) do corpo da transação, resolvendo o problema de maleabilidade e abrindo caminho para a Lightning Network. Define os tipos P2WPKH e P2WSH.
- ✅ BIP173 — Endereços Bech32 (bc1…) Propõe o formato Bech32 para endereços SegWit nativos. Mais eficiente, com detecção automática de erros de digitação e letras minúsculas, reduzindo confusões em endereços longos.
- ✅ BIP125 — Replace-by-Fee (RBF) Permite que o remetente sinalize a intenção de substituir uma transação ainda não confirmada por outra com taxa maior. Útil em períodos de congestionamento da mempool.
- ⚠️ BIP16 — Pay to Script Hash (P2SH) Define endereços que começam com “3” no Bitcoin. Principal uso atual: transações MultiSig e SegWit aninhado. Mais antigo que o SegWit nativo e gradualmente sendo substituído por formatos mais eficientes.
SLIPs para aplicações além de transações financeiras
A hierarquia determinística também foi adaptada para casos de uso que vão além do simples envio e recebimento de Bitcoin. O SLIP15 define como salvar metadados de transações — como etiquetas de contas — de forma criptografada e vinculada à carteira HD. O SLIP16 estende esse conceito para gerenciamento de senhas. O SLIP13 descreve autenticação em serviços externos usando a hierarquia determinística, enquanto o SLIP17 implementa o algoritmo ECDH para troca de chaves seguras.
📚 Nota editorial
Os repositórios oficiais de BIPs e SLIPs são públicos e mantidos no GitHub. Qualquer desenvolvedor pode propor novos padrões ou comentar sobre os existentes. A implementação de um padrão por carteiras e serviços, porém, segue ritmo próprio — o que explica por que algumas BIPs permanecem como rascunho por anos antes de ganhar adoção ampla.
Por que BIPs e SLIPs importam para quem guarda Bitcoin com autocustódia
Compreender esses padrões não é exigência apenas para desenvolvedores. Qualquer pessoa que usa uma carteira de hardware para manter autocustódia de Bitcoin se beneficia de saber, por exemplo, qual tipo de endereço está usando (P2PKH, P2SH ou P2WPKH nativo), ou o que significa uma frase de recuperação BIP39.
Dispositivos como a Trezor Safe 5 Bitcoin Only implementam simultaneamente BIP32, BIP39, BIP44, BIP49, BIP84, BIP141, BIP125, SLIP10, SLIP39 e outros padrões listados neste artigo. Isso garante compatibilidade com a grande maioria dos softwares de carteira e exchanges do mercado.
Para quem quer ir além do básico e entender como esses padrões se conectam na prática, o Curso Bitcoin do básico ao avançado aborda derivação de chaves, gerenciamento de seeds e boas práticas de autocustódia em um formato estruturado e em português.
Resumo: o que cada padrão resolve
BIP32 define a estrutura de carteiras HD. BIP39 cria frases mnemônicas de backup. BIP43/44/49/84 organizam a hierarquia por tipo de endereço. BIP141 ativa o SegWit. BIP125 permite RBF. SLIP39 oferece backup Shamir. SLIP44 registra coin types. Juntos, esses documentos formam a espinha dorsal técnica de qualquer carteira Bitcoin séria.
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