Um processo nos EUA tenta tomar 3,8 milhões de bitcoins parados usando leis de achados e perdidos. O Congresso americano corre para fechar essa brecha com legislação federal.
Uma ação judicial em curso nos Estados Unidos está tentando reivindicar a propriedade de aproximadamente 3,8 milhões de bitcoins que ficaram sem movimentação por anos. O argumento jurídico é incomum: os autores da ação usam leis estaduais de bens abandonados — as mesmas que regulamentam achados e perdidos em delegacias de polícia — para alegar que carteiras inativas poderiam ser tratadas como propriedade sem dono.
O caso coloca em xeque um princípio fundamental do Bitcoin: o de que a simples ausência de movimentação não implica abandono. Qualquer pessoa que mantenha suas chaves privadas em segurança, sem jamais mover os fundos, pode ser proprietária plena de seus ativos — mesmo que a última transação tenha ocorrido há uma década.
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A brecha legal que preocupa o mercado
Segundo a CryptoSlate, o processo se apoia em legislações estaduais que, ao longo dos anos, foram elaboradas para bens físicos — como dinheiro esquecido em contas bancárias ou objetos não reclamados em repartições públicas. Ao aplicar essa lógica a carteiras de criptomoedas, os autores argumentam que o não uso configuraria abandono passível de apropriação legal.
O volume em jogo é expressivo. Os 3,8 milhões de BTC citados no processo representam uma parcela relevante de toda a oferta circulante da moeda. Analistas estimam que parte desse total pertence a mineradores pioneiros, investidores de longa data e, possivelmente, a carteiras cujas chaves foram perdidas de forma definitiva.
Leis estaduais de bens abandonados seriam aplicáveis a carteiras Bitcoin sem movimentação, permitindo reivindicação por terceiros.
A seção 20216 do projeto CLARITY proíbe explicitamente que qualquer ativo digital em autocustódia seja classificado como abandonado ou sujeito a posse adversa.
Cerca de 3,8 milhões de BTC sem movimentação estão no centro do processo — uma cifra que representa mais de 18% da oferta total de 21 milhões.
Manter bitcoins sem movimentá-los é uma escolha legítima de gestão de patrimônio, não um sinal de abandono — argumento central da defesa do setor.
O CLARITY Act como resposta legislativa
Diante do avanço do processo, legisladores americanos aceleraram a inclusão de uma cláusula protetora na minuta mais recente do CLARITY Act, projeto de lei federal que busca estabelecer um marco regulatório abrangente para ativos digitais nos Estados Unidos.
O que diz a Seção 20216 do CLARITY
O texto determina que um ativo digital em autocustódia não pode ser considerado abandonado, não reclamado ou confiscado apenas porque seu proprietário não o movimentou ou não demonstrou interesse contínuo. A linguagem do projeto prevalece sobre leis estaduais e municipais que tratam anos de inatividade de carteiras como indício de abandono.
A iniciativa representa uma guinada relevante: pela primeira vez, o Congresso americano abordaria de forma direta a questão da soberania sobre ativos digitais em autocustódia, sobrepondo-se à patchwork de legislações estaduais que hoje geram insegurança jurídica.
O debate evidencia uma tensão crescente entre o arcabouço jurídico tradicional — construído para lidar com bens físicos e contas bancárias — e as características únicas das redes de blockchain, onde a posse é definida exclusivamente pelo controle das chaves criptográficas, independentemente de qualquer movimentação visível.
📰 Contexto editorial
A análise original foi publicada pela CryptoSlate e detalha os mecanismos jurídicos envolvidos no processo, bem como o andamento da tramitação do CLARITY Act no Congresso americano. O KriptoHoje resume e contextualiza o caso para o leitor brasileiro.
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