Em junho de 2025, criminosos esvaziaram US$ 37,3 milhões em USDT dois minutos antes de a Tether concluir um bloqueio — expondo as limitações técnicas dos mecanismos de congelamento de stablecoins.
No dia 5 de junho de 2025, uma carteira na rede Tron contendo US$ 37,3 milhões em USDT entrou no radar da Tether para ser incluída na lista negra da empresa. O processo de bloqueio, que depende de uma carteira multisignatura — exigindo aprovações de múltiplos signatários —, levou 5,7 minutos para ser concluído. Dois minutos antes da aprovação final, todo o saldo havia sido transferido para outro endereço.
O episódio, documentado pela BeInCrypto, ilustra uma disputa recorrente entre emissores de stablecoins e agentes mal-intencionados: a janela de tempo entre a iniciação de um bloqueio e sua efetivação na blockchain pode ser suficiente para mover volumes expressivos de ativos.
Como funciona o mecanismo de blacklist da Tether
A Tether, emissora do USDT — a maior stablecoin do mundo por capitalização de mercado —, mantém um contrato inteligente com a função de congelar endereços suspeitos de atividades ilícitas. Quando ativado, o endereço deixa de conseguir transferir ou receber tokens.
O problema está na arquitetura de segurança da própria Tether: por razões de governança, a função de bloqueio requer a assinatura de múltiplos controladores antes de ser executada na rede. Esse processo, embora mais seguro contra abusos internos, cria uma janela de vulnerabilidade que criminosos monitoram ativamente.
O bloqueio da carteira levou 5,7 minutos para ser concluído via multisig — tempo suficiente para mover dezenas de milhões de dólares.
Bots e ferramentas de análise on-chain permitem que grupos criminosos detectem transações de blacklist antes de sua finalização.
A Tron é amplamente usada para transações de USDT por suas taxas baixas, o que também a torna popular em esquemas de lavagem de ativos digitais.
A Tether já bloqueou centenas de endereços ao longo dos anos, frequentemente em cooperação com autoridades de diferentes países.
O papel do Ethereum e da infraestrutura descentralizada
Embora o caso específico de junho tenha ocorrido na rede Tron, o Ethereum também hospeda uma parcela significativa do USDT em circulação e enfrenta desafios similares. Contratos inteligentes na rede Ethereum igualmente permitem funções de bloqueio, mas a transparência inerente das blockchains públicas — onde qualquer transação pendente pode ser monitorada — é justamente o que cria a brecha explorada.
Para quem quer entender melhor como a rede funciona por baixo dos panos, o guia completo de Ethereum explica desde os fundamentos até os contratos inteligentes que sustentam stablecoins como o USDT.
Segundo a BeInCrypto
O veículo apurou que, no incidente de 5 de junho de 2025, a janela entre o início do processo de blacklist e sua conclusão foi de 5,7 minutos. Os fundos foram movidos dois minutos antes da assinatura final da multisig — sugerindo que os responsáveis pela carteira monitoravam ativamente a mempool ou receberam algum tipo de alerta automatizado.
O caso levanta questões sobre a eficácia dos controles centralizados em redes descentralizadas. Críticos argumentam que a transparência das blockchains, uma de suas principais virtudes, também pode ser usada contra os próprios mecanismos de compliance. Defensores, por outro lado, ressaltam que o histórico de bloqueios bem-sucedidos da Tether é extenso — e que casos como este são exceções, não a regra.
A discussão também alimenta o debate sobre stablecoins privadas versus reguladas e sobre a necessidade de mecanismos de bloqueio mais ágeis, possivelmente com execução automatizada — embora isso traga seus próprios riscos de governança e abuso.
📌 Contexto editorial
A Tether não se pronunciou publicamente sobre o incidente específico de junho de 2025 até o momento da publicação desta reportagem. O KriptoHoje baseou-se na apuração da BeInCrypto e em dados públicos de blockchain para a elaboração deste artigo.
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