Uma estratégia tributária popular entre detentores de criptoativos — tomar empréstimos contra o patrimônio em vez de vender — pode estar acumulando risco de crédito silencioso dentro dos pools de liquidez do DeFi.
Imagine um investidor que comprou ETH por US$ 1.000 e viu o ativo valorizar até US$ 4.000. Ao precisar de liquidez, a opção mais óbvia seria vender uma parte da posição — mas isso geraria um ganho de capital tributável de US$ 750 sobre cada US$ 1.000 resgatado, conforme as regras fiscais dos Estados Unidos para ativos digitais.
Existe, porém, uma alternativa que vem ganhando tração nos mercados de finanças descentralizadas: em vez de vender, o investidor deposita o ETH como colateral em um protocolo DeFi e toma um empréstimo em stablecoins. O resultado? O dinheiro entra no bolso sem que o evento tributável seja acionado — ao menos por enquanto.
Essa prática ficou conhecida no mercado americano como “buy, borrow, die” — comprar, tomar crédito e morrer. A ideia central é que, ao falecer, os herdeiros recebem os ativos com uma base de custo atualizada, potencialmente zerando o imposto sobre os ganhos acumulados ao longo da vida. Enquanto isso, o tomador utiliza o crédito para cobrir despesas cotidianas sem nunca “realizar” o lucro formalmente.
O investidor deposita ETH ou outro criptoativo como colateral em um protocolo DeFi e recebe stablecoins em troca, sem vender o ativo original.
Empréstimos não são eventos tributáveis nos EUA. O ganho de capital só é acionado em caso de venda — o que a estratégia busca adiar indefinidamente.
Se muitos usuários adotam a mesma estratégia, os pools de liquidez ficam carregados de colaterais com alto ganho não realizado — vulneráveis a liquidações em cascata.
Uma queda brusca de preços pode desencadear liquidações simultâneas, pressionando ainda mais os preços e criando um ciclo de retroalimentação negativa nos protocolos.
Segundo análise publicada pela CryptoSlate, o problema emerge justamente quando essa prática se torna disseminada. Individualmente, a operação parece segura: o colateral excede o valor do empréstimo e os protocolos possuem mecanismos automáticos de liquidação. Mas, em escala, os pools passam a concentrar uma quantidade expressiva de posições com baixo custo de aquisição original — o que significa que, em caso de queda de preços, os tomadores têm forte incentivo para não aportar mais colateral e simplesmente deixar a liquidação acontecer.
O dilema do colateral “barato”
Quando o custo de aquisição original de um ativo é muito inferior ao seu valor atual, o tomador do empréstimo tem menos incentivo financeiro para defender a posição durante uma queda. Deixar o protocolo liquidar o colateral pode, paradoxalmente, ser menos custoso do que vender o ativo e pagar o imposto sobre o ganho acumulado. Esse comportamento, multiplicado por milhares de usuários, transforma os pools DeFi em reservatórios de risco de crédito não mapeado.
A dinâmica levanta questões relevantes sobre a transparência do risco sistêmico nos protocolos de empréstimo descentralizado. Diferente do sistema financeiro tradicional, onde reguladores monitoram índices de inadimplência e exposição a crédito, no DeFi essas métricas não são padronizadas — e a motivação tributária por trás das posições raramente é visível on-chain.
Para quem deseja entender melhor como os protocolos de empréstimo descentralizado funcionam antes de utilizá-los, o que é DeFi e como funciona é um ponto de partida essencial.
📌 Nota editorial
A estratégia “buy, borrow, die” foi originalmente descrita no contexto de ativos tradicionais (ações, imóveis) e hoje migra para o universo cripto. As implicações fiscais variam conforme a jurisdição — no Brasil, a legislação sobre empréstimos com colateral em criptoativos ainda é incipiente e deve ser consultada com um especialista tributário.
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