Pesquisa com 112 petições iniciais sobre fraudes cripto no Brasil identificou 24 casos de pig butchering. Na variante romântica, todas as vítimas são homens e a maioria é casada.
O golpe do abate de porcos (pig butchering) aparece com força em processos judiciais brasileiros. Segundo a Livecoins, um levantamento do escritório Raphael Souza Advocacia analisou 112 petições iniciais sobre fraudes com criptomoedas e encontrou 24 casos desse tipo.
Nesses casos, as vítimas passaram pela chamada engorda financeira antes de terem os saldos bloqueados. Onze ações envolvem abordagem romântica, três ficam na fronteira com falsas investidoras e dez seguem o mesmo roteiro, sem apelo afetivo.
Perfil das vítimas do golpe do abate de porcos
Nos onze processos da categoria amorosa, todos os lesados são homens, com prejuízo estimado em US$ 500 mil (mais de R$ 2,6 milhões). Oito são casados, dois são solteiros e um é divorciado, conforme os documentos enviados à Justiça.
As profissões variam: três servidores públicos, dois trabalhadores do setor de transporte, além de engenharia, saúde, indústria, vendas, finanças e empresariado.
Faixa de perda de quatro homens.
Faixa de outros quatro homens.
Rombo de um engenheiro casado.
Como a abordagem acontece
Pelos dados de processos de 2025 e 2026, oito das onze abordagens românticas começaram em conversas casuais no Telegram. Houve ainda um contato inicial no Instagram, um no WhatsApp e um sem rede especificada.
Cinco vítimas contaram que as golpistas levaram a conversa ao WhatsApp após os primeiros dias, o que afasta o diálogo de ferramentas em que perfis costumam ser denunciados.
Seis petições citam identidades femininas com traços asiáticos, com nomes como Amelia, Emilia, Clara, Daisy e Chun Kai, que também assinava como Emily. Os perfis exibiam rotina de luxo e mantinham contato diário por períodos de duas semanas a três meses.
O falso tio de Wall Street
Com a confiança consolidada, a conversa migrava para ganhos com criptoativos. Em quatro casos, a indicação vinha de parentes fictícios, como um tio analista de Wall Street com vinte anos de experiência ou um especialista apoiado por equipe de 28 profissionais.
Pix, USDT e taxas falsas
Guiados passo a passo, os brasileiros usavam o Pix para comprar USDT (e, em casos pontuais, Ethereum) em corretoras reais e depois enviavam os tokens a carteiras externas.
Sites falsos mostravam lucros simulados para estimular novos aportes. Dois homens casados, das áreas de saúde e finanças, contrataram empréstimos bancários e esgotaram limites de crédito.
Ao tentar sacar, o investidor via o sistema travar e passava a receber cobranças de taxas de liberação, validação de conta ou tributos internacionais. Duas carteiras de destino terminaram em contas na corretora HTX, e domínios como bitopbank.com, coinyd.com, brrcc.top, trx.art, cryptoapx.com, gtbitsbr1.com, gtreec.com e upagz.com foram criados poucos meses antes de saírem do ar.
Em um relato de chantagem emocional, a golpista proibiu um empresário solteiro de falar com amigos e o acusou de arruinar os planos do tio após ele recusar quitar um suposto empréstimo interno.
O que isso significa para quem investe no Brasil
O estudo reúne casos de brasileiros que usaram Pix e corretoras reais, o que mostra que o golpe já opera no cotidiano local. O alerta do levantamento é direto: nenhuma plataforma legítima cobra impostos antecipados para liberar saques, e estranhos que puxam conversa nas redes antes de sugerir negócios milionários merecem desconfiança.
Leia também: guia completo de criptomoedas.
🔎 Nota editorial
Os números vêm de uma amostra de petições de um único escritório e não representam o total de vítimas no país.
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