A promessa de eliminar intermediários do mercado financeiro esbarra em um paradoxo: 94% das ações tokenizadas do mundo dependem de uma única corretora tradicional para existir.
Um dos argumentos centrais do setor cripto sempre foi a desintermediação: retirar bancos, corretoras e custodiantes da equação, permitindo que ativos circulem diretamente entre investidores. As ações tokenizadas — versões digitais de papéis negociados em bolsas tradicionais emitidas sobre blockchains — nasceram sob essa premissa. Os dados mais recentes, porém, contam uma história diferente.
Segundo reportagem da CryptoSlate, a corretora norte-americana Alpaca afirma custodiar mais de US$ 1,5 bilhão em ações físicas que servem de lastro para tokens de renda variável negociados em plataformas cripto. Rastreadores públicos do mercado indicam que esse volume representa aproximadamente 94% de todo o segmento global de equities tokenizadas.
Na prática, isso significa que a esmagadora maioria dos tokens que representam ações de empresas como Apple, Tesla ou Nvidia em redes blockchain está lastreada por títulos físicos guardados em uma única instituição financeira tradicional — o exato tipo de intermediário que a tecnologia prometia eliminar.
O que dizem reguladores e o mercado
A concentração chama atenção justamente em um momento em que o ambiente regulatório norte-americano passa por transformações significativas. A SEC (Securities and Exchange Commission) emitiu alertas formais indicando que tokens de ações emitidos por terceiros podem expor investidores a riscos adicionais de propriedade e de intermediação — ou seja, o detentor do token pode não ter, juridicamente, os mesmos direitos que o acionista direto.
Paralelamente, a DTCC (Depository Trust & Clearing Corporation), principal câmara de compensação dos Estados Unidos, anunciou o lançamento de seu próprio serviço de tokenização para outubro de 2025. A iniciativa institucional sinaliza que o segmento está amadurecendo, mas também reforça que a infraestrutura tende a permanecer nas mãos de grandes players estabelecidos.
A Alpaca detém mais de US$ 1,5 bilhão em ações físicas que lastreiam tokens em múltiplas plataformas cripto ao redor do mundo.
O regulador norte-americano alerta que tokens de ações emitidos por terceiros podem não garantir os mesmos direitos jurídicos de um acionista direto.
A principal câmara de compensação dos EUA prevê lançar serviço próprio de tokenização em outubro de 2025, institucionalizando ainda mais o segmento.
Rastreadores públicos indicam que uma única custodiante responde por 94% de todo o volume global de equities tokenizadas.
Promessa versus realidade da desintermediação
A tokenização de ativos reais (RWA — Real World Assets) é apontada por grandes gestoras e pelo setor cripto como um dos vetores de crescimento para a próxima década. Bancos como BlackRock e JPMorgan já exploram o tema ativamente. No entanto, o caso das ações tokenizadas expõe uma tensão estrutural: para que um token represente uma ação real, alguém precisa deter essa ação no mundo físico.
Esse “alguém”, no atual estágio do mercado, é quase sempre uma corretora ou custodiante regulamentada — recriando, na camada de base, a mesma dependência institucional que a blockchain prometia dispensar. A descentralização, nesse modelo, fica restrita à camada de transferência do token, não à sua custódia subjacente.
Contexto: o que é uma ação tokenizada?
Uma ação tokenizada é um ativo digital emitido em blockchain que representa, de forma sintética ou lastreada, uma fração ou totalidade de uma ação listada em bolsa tradicional. O investidor negocia o token 24 horas por dia, 7 dias por semana, mas o direito sobre a ação subjacente depende do modelo jurídico adotado pelo emissor e da solidez da custodiante que guarda os papéis físicos.
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📰 Fonte
As informações e dados utilizados nesta reportagem têm como base a publicação original da CryptoSlate, veículo especializado em cobertura do mercado de criptoativos, publicada em julho de 2025. Números de custódia foram declarados pela própria Alpaca e corroborados por rastreadores públicos do setor.
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