Um documento de trabalho do Fundo Monetário Internacional analisa como stablecoins lastreadas em dólar podem intensificar corridas cambiais em países que defendem taxas de câmbio fixas sobrevalorizadas.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou um documento de trabalho que coloca as stablecoins atreladas ao dólar no centro de um debate sobre estabilidade financeira global. O estudo, assinado pelo pesquisador Brandon Joel Tan, examina como esses ativos digitais podem amplificar crises em economias que mantêm câmbio fixo e moedas sobrevalorizadas.
Segundo a BeInCrypto, o documento descreve um efeito dependente do contexto econômico: em períodos de calma, as stablecoins podem trazer benefícios ao sistema, mas em momentos de estresse, tornam-se um vetor de amplificação de crises cambiais.
Para entender o cenário descrito pelo FMI, é importante compreender o que são stablecoins e como funcionam os regimes de câmbio fixo. Confira nosso guia completo de criptomoedas para uma introdução ao tema.
O que o estudo do FMI identificou
Em países com câmbio fixo sobrevalorizado, existe frequentemente um mercado paralelo de câmbio, onde a moeda local é negociada por valores diferentes da taxa oficial. Historicamente, esse mercado fragmentado funcionava como uma espécie de “válvula de escape” para pressões cambiais, mas sem coordenação suficiente para provocar uma crise imediata.
O estudo do FMI aponta que as stablecoins em dólar mudam essa dinâmica. Por oferecerem um ponto de saída único, acessível e transparente, elas permitem que famílias e empresas fujam da moeda local de forma simultânea e coordenada, transformando pressões fragmentadas em uma corrida cambial em larga escala.
As stablecoins podem elevar o bem-estar econômico ao facilitar transações, reduzir custos de conversão e ampliar o acesso a serviços financeiros digitais.
As stablecoins podem coordenar a saída em massa de capitais, unificando sinais de preço dispersos do mercado paralelo e acelerando o colapso do regime cambial.
Um risco para economias emergentes
O alerta do FMI tem relevância especial para economias emergentes que dependem de regimes de câmbio controlado para manter a estabilidade macroeconômica. Nesses países, a adoção crescente de stablecoins em dólar pode criar um canal de fuga de capitais que os bancos centrais têm dificuldade de monitorar e conter.
O efeito de “sinal único”
O pesquisador Brandon Joel Tan descreve que os mercados paralelos de câmbio, por serem fragmentados, não geram um sinal de preço claro o suficiente para coordenar uma corrida. As stablecoins eliminam essa fragmentação: qualquer pessoa com acesso à internet passa a ter uma referência única e imediata do valor do dólar, o que pode desencadear movimentos coletivos de saída da moeda local em questão de horas.
O estudo não defende o banimento das stablecoins, mas sugere que reguladores e formuladores de política monetária precisam incorporar esses ativos aos modelos de risco sistêmico. A análise faz parte de um esforço maior do FMI para mapear os impactos macroeconômicos dos criptoativos.
Para o Brasil, onde o real já enfrenta pressões cambiais periódicas, o debate levantado pelo FMI é oportuno. A expansão do uso de stablecoins no país — especialmente para remessas e proteção contra inflação — é um fenômeno que o Banco Central vem acompanhando de perto, inclusive no contexto da regulamentação dos ativos virtuais.
📌 Nota editorial
O documento citado nesta reportagem é um working paper (documento de trabalho) do FMI, o que significa que representa a visão dos pesquisadores autores, e não necessariamente a posição oficial da instituição. Working papers são publicados para estimular o debate e receber contribuições da comunidade acadêmica e de formuladores de políticas.
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