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“Cobicei seus 3%”: investidor tira 50 BTC da Binance e fica sem resgate na Solv

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Um investidor sacou 50 BTC da Binance para ganhar 3% ao ano num produto da Solv Protocol que viu recomendado na Binance Web3 Wallet. Quase três meses depois, o endereço dele segue bloqueado. A história é nova. O roteiro, não.

Em 8 de julho de 2026, um investidor que se identifica no X como neil lee (@neillee99) sacou 50,0039 BTC da Binance. O destino não foi uma carteira física. As moedas saíram pela BNB Smart Chain e foram convertidas em SolvBTC e depois em BTC+, um cofre de rendimento da Solv Protocol. O objetivo, nas palavras dele, era simples: nenhuma operação complexa ou especulativa, só cerca de 3% ao ano.

Cinco dias depois, o BTC+ sofreu um ataque. As funções do produto voltaram no fim de julho. O acesso do investidor, não. Nesta terça-feira (29), ele publicou em chinês um relato detalhado, com capturas de tela, dizendo que o endereço segue restrito e que os cerca de 50 BTC não podem ser resgatados. No fim da manhã, a publicação passava de 155 mil visualizações.

“Eu cobicei seus 3% ao ano. Você mirou todo o meu capital.”

neil lee (@neillee99), dirigindo-se à Solv Protocol, em tradução livre do chinês

Pela cotação desta terça, os 50 BTC valem perto de US$ 4,2 milhões, cerca de R$ 21,6 milhões. Os 3% que ele buscava equivalem a 1,5 BTC por ano. É essa desproporção, que ele mesmo reconhece na frase acima, que transforma o caso numa aula.

50,0039 BTC

Sacados da Binance em 08/07/2026. Hoje, perto de US$ 4,2 milhões ou R$ 21,6 milhões.

3% ao ano

O rendimento buscado. Equivale a cerca de 1,5 BTC por ano.

83 dias

De 08/07 a 29/09/2026 sem conseguir resgatar, segundo o investidor.

60 e-mails

Trocados com a Solv desde 31/07, 50 deles enviados por ele. Resposta a cada 10 dias, em média.

Conversões aproximadas: BTC a US$ 83,9 mil (manhã de 29/09/2026) e dólar a R$ 5,15 (referência de 16/09/2026).

O que aconteceu, dia a dia

A cronologia abaixo segue o relato e as capturas de tela publicadas pelo investidor, cruzados com o que a Solv comunicou publicamente.

08/07/2026

Saca 50,0039 BTC da Binance pela BNB Smart Chain e converte em SolvBTC e depois em BTC+, pelos canais oficiais.

Após o depósito

Por causa do valor alto, passa a entrar todo dia no site da Solv para acompanhar o valor da cota e o rendimento. É assim que percebe que a emissão e o resgate do BTC+ foram suspensos de repente.

13/07/2026

O contrato do BTC+ na BNB Smart Chain é atacado. A causa foi o vazamento de uma chave de implantação (deployment key), que permitiu ao invasor emitir BTC+ sem autorização. A Solv diz ter isolado o contrato malicioso e que o BTC de lastro está seguro. Segundo o investidor, a comunidade não foi avisada na hora.

18 e 20/07/2026

Pergunta no Telegram e na comunidade oficial por que emissão e resgate foram pausados. Não recebe resposta efetiva. Diz que, nos grupos em inglês e em chinês, outros usuários também reclamavam de resgates que não chegavam.

22/07/2026

A Solv divulga o incidente publicamente e afirma que os ativos dos usuários não foram prejudicados.

31/07/2026

A Solv anuncia que as funções foram restabelecidas. Um atendente diz a ele, no Telegram, que o resgate já pode ser feito. A tentativa de resgatar cerca de 48,98 BTC+, equivalentes a 50,18 SolvBTC, é rejeitada pelo contrato com o erro “STF”. O endereço continua restrito.

Agosto e setembro

Abre chamado no Discord e segue por Telegram e e-mail. A Solv pede origem dos fundos, histórico de transações, prova de controle da carteira e dados da conta. Ele diz ter enviado tudo. São 60 e-mails, 50 escritos por ele, com resposta a cada 10 dias, em média. Em setembro, procura pessoas ligadas ao projeto por vários canais, sem resultado.

29/09/2026

Publica o relato. Pede uma coisa só: retirar a restrição e liberar o resgate. Diz aceitar uma revisão razoável de risco e conformidade e pergunta quanto tempo ela ainda vai levar.

Do bitcoin ao recibo do recibo

Para entender o risco, vale seguir o caminho das moedas. Na Binance, o investidor não tinha bitcoin no sentido estrito. Tinha um saldo, ou seja, uma promessa da corretora de entregar BTC quando ele pedisse. O saque não mudou isso. Pela BNB Smart Chain, o que sai da Binance é BTCB, um token emitido pela própria corretora, com lastro em bitcoin sob custódia dela. Em cima dessa promessa, ele empilhou mais duas.

Etapa 1

BTCB

Token da Binance na BNB Smart Chain. O lastro continua sob custódia da corretora.

Etapa 2

SolvBTC

Token da Solv que representa bitcoin. A reserva inclui BTC, BTCB e outros bitcoins tokenizados.

Etapa 3

BTC+

Recibo de cota num cofre de rendimento administrado por um gestor.

Etapa 4

Resgate

Pedido processado pelo gestor, em calendário próprio e sujeito às restrições do protocolo.

A Solv nasceu em 2021 e se apresenta como a maior reserva de bitcoin on-chain, com cerca de 24 mil BTC segundo o próprio site em março deste ano. O BTC+ foi lançado em julho de 2025 como um cofre automatizado. À CoinDesk, a empresa descreveu na época uma combinação de arbitragem de base, mercados de crédito DeFi, staking e ativos do mundo real, com retorno base de 4,5% a 5,5% ao ano.

Pela documentação da Solv, quem entra recebe um token que registra sua participação. Para sair, faz um pedido de resgate, e o gestor do fundo devolve o BTC conforme o calendário: no dia 10 do mês seguinte, nas redes compatíveis com Ethereum; em até 14 dias, para posições a partir de 1 BTC+, nas demais redes.

Cada camada soma um risco que o bitcoin guardado em carteira física não tem: o da corretora que emite o BTCB, o do contrato inteligente, o das chaves administrativas, o do gestor e o da ponte entre redes. O ataque de 13 de julho expôs o ponto mais frágil. Uma única chave de implantação vazada bastou para alguém fabricar BTC+ sem lastro.

O botão que congela um invasor também congela você.

Protocolos com poder de pausar contratos e restringir endereços usam esse poder para conter ataques. O mesmo botão serve para travar um usuário legítimo. E quem decide quando apertá-lo não é o dono das moedas.

Pelo relato, a Solv conduz o caso como uma revisão de risco e conformidade, com pedidos de documentos comuns nesse tipo de verificação. Até a publicação, o KriptoHoje não encontrou explicação pública da Solv sobre o motivo da restrição nem sobre o prazo da análise.

Três decisões que custaram caro

Não há nada a ganhar em humilhar quem ficou sem acesso ao próprio dinheiro. O próprio investidor admite, na frase que abre o post, que foi atrás do rendimento. O caso é útil porque o roteiro é comum e qualquer pessoa pode repeti-lo. Ele tem três passos.

1. Deixar 50 BTC numa corretora

Saldo em corretora é crédito contra a empresa, não posse de bitcoin. A própria Binance teve 7.000 BTC roubados de uma carteira quente em maio de 2019 e cobriu o prejuízo com seu fundo de reserva, o SAFU. Em novembro de 2022, os clientes da FTX descobriram o que acontece quando a corretora não tem como cobrir.

2. Trocar bitcoin por um papel que promete rendimento

Bitcoin parado na carteira física não paga juros porque ninguém está usando aquele dinheiro. Todo rendimento em BTC vem de alguém que pegou as moedas emprestadas, alavancou, operou ou apostou. Quem paga os 3% está usando o seu bitcoin, e o risco dessa operação passa a ser seu.

3. Arriscar 100% por 3%

A tela já mostrava o sinal. Numa das imagens anexadas ao post, a área de rendimentos para BTCB na BNB Smart Chain lista a Solv com 0% a 3% ao ano. Logo abaixo aparecem Lista (0,35%), Venus (0,18%) e Aave V3 (0,01%). Quando uma opção paga quase nove vezes mais que a segunda colocada pelo mesmo ativo, a diferença não é generosidade. É risco.

E a conta não fecha. Três por cento de 50 BTC são 1,5 BTC por ano. Nos 83 dias em que o dinheiro está travado, o rendimento prometido somaria cerca de 0,34 BTC, algo como US$ 28,6 mil. Do outro lado da balança estão os 50 BTC inteiros. Nenhuma taxa compensa um risco capaz de levar o principal.

Onde entra a Binance

A Binance não aparece no caso como responsável pelo bloqueio. O próprio investidor faz questão de dizer que não pede à corretora nem aos investidores da Solv que assumam essa responsabilidade. Mas a Binance aparece como porta de entrada, e por mais de um caminho.

Ele escreveu que escolheu o BTC+ porque viu o produto exibido e recomendado na área de rendimentos em BTC da Binance Web3 Wallet, a carteira integrada ao aplicativo da corretora. E explicou o raciocínio: a confiança de longo prazo na Binance virou confiança no produto. Por isso marcou no post os co-CEOs da corretora, He Yi e Richard Teng, pedindo atenção ao caso.

A relação entre as duas empresas não é casual. A Solv se apresenta no X como apoiada pela Binance Labs, rebatizada de YZi Labs em 2025 e marcada pelo investidor entre os financiadores do projeto. O protocolo já fez campanhas oficiais dentro da Binance Wallet. Em novembro de 2024, uma delas dividiu US$ 300 mil em SolvBTC entre usuários que depositassem BTCB no pool da Solv. Outra, na aba Yield+, anunciava recompensas de até 30% ao ano.

Em janeiro de 2025, a Binance listou o token SOLV pelo programa Megadrop, dias depois de Hanzhi Liu, cofundador da Nubit, acusar a Solv de inflar o valor que dizia ter travado. A Solv negou: o cofundador Ryan Chow classificou as acusações como uma campanha organizada de difamação, e a empresa passou a publicar prova de reservas pela Chainlink. O BTC+ atacado em julho rodava na BNB Smart Chain, a rede ligada à Binance. E o SolvBTC é aceito como garantia nos empréstimos da Binance operados pela Venus Protocol, que o investidor também cobrou: ele quer saber se a Venus, um dos principais mercados de empréstimo com SolvBTC, abriu alguma avaliação de risco diante das queixas de resgate travado.

Nada disso indica que a Binance tenha participado da restrição ao endereço. O ponto é outro. Para o investidor comum, um produto exibido dentro do aplicativo da maior corretora do mundo herda a confiança da marca. A vitrine, porém, não assume o risco do que está exposto nela.

O roteiro já foi encenado antes

Rendimento em bitcoin que trava na hora do resgate não é novidade. Mudam o nome do produto e a taxa prometida. O desfecho costuma ser parecido.

Brasil, 2019

Atlas Quantum

A plataforma de arbitragem de bitcoin divulgava ganhos de 2% a 3% ao mês. Em agosto de 2019, logo após a CVM proibir a oferta, os saques começaram a travar. Dois irmãos foram à Justiça para tentar reaver cerca de 435 BTC. A empresa negou irregularidades e atribuiu o problema a bloqueios em corretoras.

Estados Unidos, 2022

Celsius

Oferecia até 18% ao ano e dizia ter 1,7 milhão de clientes. Em 12 de junho de 2022 congelou os saques, com cerca de US$ 12 bilhões em ativos, e pediu recuperação judicial um mês depois. Um usuário relatou que ganhava 2,5% ao ano em BTC na plataforma, taxa próxima à do caso atual. Em 2025, o fundador Alex Mashinsky foi condenado a 12 anos de prisão.

Março de 2026

Solv Protocol

Um cofre da própria Solv, da linha BRO, foi explorado por uma falha de emissão duplicada. Saíram cerca de 38 SolvBTC, perto de US$ 2,7 milhões na época. A empresa disse que menos de 10 usuários foram afetados e prometeu cobrir as perdas.

Março de 2026

Venus Protocol

Principal plataforma de empréstimos da BNB Chain e parceira da Solv, a Venus foi explorada com manipulação de preço do token THE. O invasor retirou cerca de US$ 3,7 milhões e deixou perto de US$ 2,15 milhões em dívida incobrável.

Em nenhum desses casos o problema esteve no Bitcoin. Esteve nos intermediários colocados entre o investidor e as moedas.

O rendimento de quem não tira o BTC da carteira

Na semana passada, um cliente da KriptoBR, empresa que mantém o KriptoHoje, perguntou como fazer seus bitcoins renderem. A resposta de Jefferson Rondolfo, CEO da empresa, foi curta:

“Jamais tire seus bitcoins da carteira física. Espere, e o tempo fará o rendimento.”

Jefferson Rondolfo, CEO da KriptoBR

É a posição de quem vende carteiras físicas, e o leitor deve pesá-la sabendo disso. A lógica, porém, é simples: numa carteira física, as chaves ficam com o dono. Não há gestor para pausar resgates nem contrato para ser congelado. A escolha também tem custo. O bitcoin oscila, a valorização passada não garante a futura, e quem guarda as próprias chaves responde sozinho pela frase de recuperação.

Cinco perguntas antes de aceitar rendimento em bitcoin

  • Quem fica com a chave privada enquanto o dinheiro rende?
  • Quem pode pausar o produto, congelar ou restringir o meu endereço?
  • De onde sai o rendimento, exatamente? E por que ele é maior que o das alternativas?
  • Quanto tempo leva o resgate e quem precisa aprovar?
  • Quanto ganho se tudo der certo e quanto perco se der errado?

Se a resposta à primeira pergunta não for “eu”, não se trata de investir em bitcoin. Trata-se de emprestar o seu bitcoin a outra pessoa.

Sair da corretora é só metade do caminho

O caso aparece numa semana de saída recorde de bitcoin da Binance. Em 22 de setembro, mais de 13.800 BTC deixaram a corretora, a maior saída líquida diária desde 2023, segundo dados da CryptoQuant. Em quatro dias, as reservas caíram de cerca de 705 mil para 685 mil BTC. Parte desse volume pode ter ido para custódia própria; parte, para custodiantes institucionais ou movimentações internas.

O investidor do caso Solv também saiu da Binance, ou achou que saiu. O saque em BTCB manteve o dinheiro ligado à custódia da corretora, e a conversão empilhou mais duas camadas por cima. Sair da corretora só protege quando o bitcoin chega a um endereço cuja chave está com o dono.

Procuramos a Solv Protocol e a Binance para comentar o caso. Até a publicação, não houve resposta. Esta matéria será atualizada se houver posicionamento.

Seu bitcoin, suas chaves

A carteira física guarda a chave privada fora da internet e fora do alcance de corretoras, gestores e contratos. A KriptoBR é revendedora oficial de Trezor, Ledger e SecuX no Brasil desde 2017.

Conhecer as carteiras físicas

Quer aprender a guardar com segurança? Veja o Curso de Segurança e Privacidade da KriptoBR.

Aviso: este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento. Criptoativos são voláteis e podem perder valor. O relato reflete a versão do investidor. O KriptoHoje conferiu a publicação original e as capturas de tela divulgadas, mas não verificou as transações de forma independente. Trechos do post foram traduzidos livremente do chinês.

Transparência: o KriptoHoje é mantido pela KriptoBR, revendedora oficial de carteiras físicas no Brasil desde 2017. A frase de Jefferson Rondolfo reflete a posição da empresa.

Fontes

Reportagem produzida com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas do setor e revisada pela equipe da KriptoBR antes da publicação. Como produzimos nosso conteúdo.
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