Uma vulnerabilidade na geração de chaves privadas em hardware wallets Coldcard resultou no roubo de pelo menos 1.719 BTC — equivalente a cerca de US$ 111 milhões — afetando mais de 5.200 endereços.
No dia 30 de julho de 2026, uma série de transações suspeitas começou a esvaziar endereços Bitcoin em ondas coordenadas. Em apenas 41 minutos, 1.196 endereços de assinatura única foram drenados, com a perda imediata de aproximadamente 1.082 BTC. Nas semanas seguintes, o número escalou: mais de 5.200 endereços comprometidos e pelo menos 1.719 BTC desaparecidos — algo em torno de US$ 111 milhões ao câmbio da época.
O detalhe que mais chamou atenção dos pesquisadores: boa parte dessas carteiras estava inativa há meses, algumas há anos. Os fundos permaneciam intocados — e ainda assim foram alcançados. O que foi comprometido não foram senhas, não foram dispositivos físicos, mas sim a camada das chaves privadas em si, geradas por hardware wallets da Coldcard.
O problema estava na entropia de geração das chaves
Segundo análise publicada pela SlowMist, empresa especializada em segurança blockchain, a raiz do problema estava na baixa entropia efetiva utilizada durante a geração das chaves privadas em determinadas versões de firmware. Entropia, nesse contexto, é a medida de aleatoriedade usada para criar uma chave — quanto menor, mais previsível e vulnerável ela se torna.
Os dispositivos Mk2 e Mk3, rodando firmwares entre as versões 4.0.1 e 4.1.9, apresentavam apenas cerca de 40 bits de entropia efetiva — bem abaixo do considerado seguro para resistir a ataques de força bruta offline. Já os modelos Mk4, Mk5 e Q, em versões específicas de firmware, operavam com aproximadamente 72 bits de entropia, o que, de acordo com os pesquisadores, ainda se enquadraria dentro do alcance de ataques computacionais sofisticados.
Apenas ~40 bits de entropia efetiva. Os modelos mais severamente afetados, altamente vulneráveis a ataques de força bruta offline.
Aproximadamente 72 bits de entropia — mais robusto, mas ainda dentro do intervalo considerado vulnerável por pesquisadores.
As vítimas não utilizaram a opção de adicionar entropia manual via dados (dice rolling), o que poderia ter mitigado o risco.
Nenhuma das vítimas confirmadas havia configurado uma passphrase BIP-39, camada adicional de proteção que dificultaria a derivação das chaves.
Em outras palavras, as vítimas seguiam a configuração mais básica e comum do dispositivo — sem customizações adicionais de segurança. Não houve erro do usuário no sentido tradicional: elas confiaram no comportamento padrão de um hardware wallet considerado referência no mercado.
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Coinkite respondeu rapidamente com correção
A Coinkite, fabricante dos dispositivos Coldcard, reagiu com agilidade. Ainda no dia 30 de julho, a empresa emitiu um aviso público sobre a vulnerabilidade. No dia seguinte, disponibilizou uma versão corrigida do firmware: a 4.2.0, destinada aos modelos Mk2 e Mk3. Os demais modelos também receberam atualizações específicas endereçando os problemas identificados.
O que diz a SlowMist
Segundo a Stories by SlowMist on Medium, o incidente envolveu três a quatro ondas de ataques distintas, todas explorando a mesma fraqueza na camada de geração de chaves privadas. A análise aponta que a ausência de entropia adicional — como o uso de dados físicos ou uma passphrase BIP-39 — deixou as carteiras expostas a ataques de força bruta offline, mesmo em dispositivos que fisicamente nunca foram comprometidos.
O episódio reacende um debate importante na comunidade: até que ponto as configurações padrão de um hardware wallet são suficientemente seguras? Para a maioria dos usuários, a resposta intuitiva seria “sim” — afinal, o próprio propósito desses dispositivos é oferecer segurança sem exigir conhecimento técnico aprofundado.
O caso Coldcard demonstra que vulnerabilidades podem existir na base matemática da geração de chaves, invisíveis ao usuário comum e silenciosas por anos — até que alguém com capacidade computacional suficiente decida explorar essa fraqueza.
📌 Nota editorial
Se você utiliza uma Coldcard com firmware anterior à versão 4.2.0 (Mk2/Mk3) ou equivalente nos modelos mais novos, a Coinkite orienta a atualização imediata do firmware e a migração dos fundos para novos endereços gerados com o software corrigido. Consulte o canal oficial da Coinkite para instruções detalhadas.
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