Relatório da Chainalysis aponta que organizações criminosas estrangeiras, incluindo redes da China e da Rússia, já operam no mercado de criptomoedas do Brasil ao lado de facções locais como PCC e CV.
O mercado de criptomoedas no Brasil tem atraído não apenas investidores e entusiastas de tecnologia, mas também a atenção de organizações criminosas internacionais. Segundo a Chainalysis, empresa especializada em análise de dados em blockchain, redes ligadas à China e à Rússia já utilizam o ecossistema cripto brasileiro para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita.
De acordo com reportagem da Exame, a análise da Chainalysis revela que serviços internacionais de ocultação de recursos — os chamados mixers e exchanges de alto risco — se somam ao uso crescente de moedas digitais por facções criminosas brasileiras, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).
O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas o país chama atenção pelo volume de transações suspeitas identificadas e pela capilaridade das redes envolvidas. Para quem ainda está conhecendo o universo das moedas digitais, vale entender os fundamentos: leia também o guia completo de criptomoedas.
Como o crime usa criptomoedas para lavar dinheiro
A lavagem de dinheiro via criptoativos funciona, em linhas gerais, por meio de três etapas: colocação dos recursos na rede, estratificação para dificultar o rastreamento e integração do dinheiro “limpo” na economia formal. Organizações criminosas sofisticadas utilizam ferramentas como mixers (que embaralham transações), exchanges sem verificação de identidade (KYC) e endereços intermediários para apagar rastros.
No caso das redes identificadas pela Chainalysis, a preocupação adicional é a internacionalização do esquema. Grupos ligados à Rússia, por exemplo, já foram associados a operações de ransomware e evasão de sanções financeiras. Redes chinesas, por sua vez, aparecem frequentemente ligadas a fraudes em larga escala e ao tráfico internacional de entorpecentes.
Serviços que misturam transações de múltiplos usuários para dificultar o rastreamento da origem dos fundos na blockchain.
Plataformas que operam sem exigências rigorosas de KYC (conheça seu cliente), frequentemente usadas para converter criptoativos ilícitos em moeda fiduciária.
Endereços cripto controlados por terceiros que atuam como intermediários, fragmentando o fluxo financeiro e dificultando investigações.
Moedas atreladas ao dólar, como USDT, aparecem com frequência crescente em transações suspeitas por oferecerem estabilidade de valor e ampla liquidez.
O papel das autoridades brasileiras
A Receita Federal, o Banco Central e a Polícia Federal têm intensificado o monitoramento de transações com criptoativos nos últimos anos. O marco regulatório aprovado em 2022 (Lei 14.478) estabeleceu regras mais claras para prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs) e ampliou as obrigações de reporte ao COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
Ainda assim, especialistas apontam que a velocidade de adaptação das organizações criminosas costuma superar a capacidade regulatória. A análise on-chain — rastreamento direto das transações registradas na blockchain — tem se mostrado uma das ferramentas mais eficazes para investigadores identificarem padrões suspeitos.
O que é análise on-chain?
A análise on-chain consiste no rastreamento e interpretação de dados registrados diretamente na blockchain — o livro-razão público das criptomoedas. Por ser transparente e imutável, a blockchain permite que empresas como a Chainalysis identifiquem fluxos de recursos suspeitos, associem endereços a entidades conhecidas e apoiem investigações de autoridades ao redor do mundo.
📰 Fonte
As informações deste artigo têm como base reportagem publicada pela Exame, com dados da Chainalysis, empresa referência global em inteligência de blockchain.
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