A bolsa brasileira mostrou à CVM um modelo experimental de ações tokenizadas, negociadas sem pausa e com liquidação quase instantânea, mas ainda sem data de lançamento e dependente de regulação.
A B3 apresentou na sexta-feira (6) um projeto para permitir ações 24 horas por dia, sete dias por semana, incluindo madrugadas, fins de semana e feriados. Segundo a Portal do Bitcoin, a proposta usa blockchain para criar versões tokenizadas dos papéis e prevê liquidação praticamente imediata, no lugar do prazo atual de dois dias úteis.
O modelo foi exposto no 2º Encontro com o Mercado do Grupo de Trabalho de Tokenização (GTT), promovido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em São Paulo. Eduardo Alexandre Marques Silva, Carlos Alberto Spina Junior e Raphael de Almeida Torlay, da B3, detalharam a arquitetura e os desafios.
A ideia é aproximar o mercado de ações da experiência das corretoras de criptomoedas, onde Bitcoin (BTC) e Ethereum (ETH) são negociados a qualquer hora. A B3 ressalta que o projeto é experimental e não significa o lançamento imediato de um mercado ininterrupto.
Como funcionariam as ações 24 horas
A principal mudança é um segundo ambiente de negociação, conectado à infraestrutura tradicional, mas capaz de operar sem interrupções. Nele, os investidores negociariam representações digitais de ações existentes, mesmo com o pregão convencional fechado.
A tecnologia segue o conceito de digital twin, o gêmeo digital. Cada token representaria uma ação registrada na B3, e a titularidade oficial continuaria na depositária central.
Ao transferir ações para uma estrutura específica, os tokens correspondentes seriam emitidos. O processo inverso destrói os tokens e devolve os papéis ao ambiente tradicional.
A entrega da ação tokenizada e o pagamento ocorreriam ao mesmo tempo, reduzindo o risco de uma parte cumprir a obrigação e a outra não.
Uma stablecoin não seria obrigatória, mas Eduardo Alexandre Marques Silva afirmou que o ideal seria ter uma moeda tokenizada.
A infraestrutura precisará conciliar os dois ambientes e acompanhar dividendos, desdobramentos, grupamentos e fusões.
Pela apresentação, a negociação em si não ocorreria diretamente na blockchain. A B3 pretende manter um sistema próprio para executar as ordens de compra e venda, usando o registro distribuído sobretudo para representar os ativos e liquidar as operações.
A bolsa também não pretende abandonar já o modelo atual. Os representantes destacaram que a compensação e liquidação convencionais mantêm vantagens, como a eficiência financeira da compensação entre diferentes operações. A proposta é que as duas estruturas convivam.
Testes com a CVM e calendário
Em outubro, Humberto Costa, diretor de Produtos de Balcão e Ativos Digitais da B3, disse que a companhia pretendia começar a negociar ações tokenizadas em janeiro de 2027. Aquele lançamento inicial não incluiria operações 24 horas nem liquidação instantânea.
A ideia era negociar os ativos tokenizados no mesmo livro de ofertas das ações tradicionais, mantendo a liquidação em D+2 exigida pela regulação atual. Costa afirmou ainda que a B3 tem capacidade para tokenizar todas as ações de sua plataforma, mas não definiu quantas entrarão na primeira etapa.
Oito semanas de testes
A B3 pretende fazer testes por cerca de oito semanas, da emissão e destruição de tokens à execução das transações e à integração com os sistemas de supervisão. Segundo Raphael de Almeida Torlay, APIs permitirão que a CVM consulte dados de transações, participantes e registros gerados nos experimentos.
O que isso significa para quem investe no Brasil
Por ora, nada muda para o investidor: o pregão segue com horários fixos e liquidação em D+2. A iniciativa indica o caminho que a bolsa testa, e a implementação depende dos resultados dos experimentos e de eventuais mudanças nas regras do mercado de capitais.
Leia também: guia completo de Bitcoin para iniciantes.
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